Conversa Materna, Gente que compartilha

A velha culpa que carregamos

Por Sheila Mendonça

Eu pensei que estava vacinada, acostumada à minha rotina de mãe imperfeita. Realmente pensei que daria conta sem me culpar tanto. Me deixei seduzir pelo mais novo discurso das matérias direcionadas às mães, de que ser imperfeita é normal, que errar é humano e por isso, um luxo que nós sim, podemos ter.

Li e reli várias vezes textos motivacionais, me emocionei, tentei aplicar à minha realidade e ao que hoje sou. Não enxerguei que a maioria, se não todos, foram escritos por mães doídas, por corações partidos, por mulheres insatisfeitas consigo mesmas, mas que encontraram nos textos uma forma de desabafar, de expor e quem sabe, encontrar quem erre parecido afim de aliviar um pouco o aperto no peito. Me esqueci que muitos textos que escrevi foram na mesma circunstância, com as lágrimas pingando no teclado.

E que bom era ouvir de alguém que eu relatei exatamente o que ela passa em casa, que ajudei de alguma forma dando apoio ou pelo menos retratando com doçura o que por tanto tempo escondemos. De tanto esconder, nos tornamos mestres no feito e de tão bem feito, nem percebemos mais, nos enganamos. Mas ela está ali, apontando o dedo, tomando vida e forma nos olhos dos nossos filhos.

Mesmo diante da bronca justa, do remédio que cura, da lição que ensinamos, as lágrimas de nossos filhos diante do dolorido “não” machuca o pobre coração de quem só quer fazer o bem, mesmo errando, a intensão é tão somente fazer o bem, criar bem criado, cuidar com zelo, abraçar mais forte.

Não importa se você é mãe de um, dois, três. Se tem um mês de nascimento ou dez anos de idade. Se o “erro” foi hoje pela manhã ou há anos. O feito ou o desfeito continua materlando na cabeça, quando paramos para pensar, quando distraídas contamos para alguém nossa experiência e sem querer já estamos aos prantos.

Recentemente contei para uma amiga sobre minha experiência com a depressão pós parto. Estávamos comentando que é tão fácil ficarmos deprimidas quando nasce o bebê, que o assunto deveria ser melhor abordado nas consultas com o obstetra, por exemplo. Deveríamos ser melhor instruídas quando ao assunto, mas não somos. Ela se sentindo culpada por não ter conseguido acordar logo depois do parto com primeiro choro noturno do bebê, por que dormiu ouvindo outros bebês chorando e nem percebeu quando o próprio abriu o berreiro querendo mamar de madrugada. Contou que chorou tanto, se sentiu culpada, por não ter acalentado seu filho em sua primeira noite de nascido. Então comecei a contar sobre a depressão, sobre a falta de força que eu tinha em levantar da cama para cuidar do bebê, que meu marido precisava pegar a criança e colocar no meu peito contra meu gosto para amamentar, que eu pedia para dormir, que eu só queria dormir e esquecer. Que ele teve que contratar alguém para cuidar de mim, não do bebê, para garantir que todos estaríamos a salvo, bem e vivos quando retornasse do trabalho. Contei que depois de três meses, eu não havia trocado quase nenhuma fralda do meu filho, que ele fazia tudo, do banho ao leite que já era na mamadeira por eu não conseguir amamentar. Contei do “estalo” na minha cabeça que me fez acordar para o mundo e para a maternidade, do amor que foi crescendo e hoje é do tamanho do mundo e principalmente, da culpa que eu carrego por não ter cuidado do meu filho como deveria. E eu, que pensava já estar acostumada, me vi novamente ali frágil, diante de uma amiga e com o coração em pedaços por ter feito o que fiz.

Ser mãe é isso mesmo! Por mais clichê que pareça, quando nasce uma mãe, nasce uma culpa. E quanto mais fazemos, quanto mais nos esforçamos, mais nos cobramos a ser melhores. Nem é mais tão necessário que as pessoas apontem o dedo, você mesma faz isso diariamente. Se você é uma mãe que assim como eu, também se sente culpada, com o coração pequeno diante do tamanho do desafio que é a maternidade, saiba que estamos todas juntas, no mesmo barco e que é muito mais fácil quando remamos juntas.

Eu sinceramente desejo que você, assim como eu, tenha uma amiga para dividir e acrescentar o que há de melhor em cada uma de nós.

Sheila Mendonça é Relações Públicas e empreendedora. Inquieta, curiosa e amante por literatura, sempre viu nas crônicas de Mario Prata uma inspiração para transformar o cotidiano em textos bonitos e interessantes, que trouxessem leveza à vida com um toque de humor. Pensando nisso, criou o “Uai, mãe!?“, para dividir a rotina com os três filhos, contando suas dúvidas e receios, compartilhando com outras mamães sua experiência de forma leve e descontraída.

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