Experiências, Gente que compartilha

Vai passar…

E eu só te digo uma coisa: acalma teu coração, aquieta sua alma, silencie os pensamentos, cobranças e culpa. Silencia as vozes que te falam que só isso não basta mesmo este “só isso” sendo o melhor que você pode ser.

As noites em claro vão passar, o choro da madrugada um dia cessam. O café tomado às pressas em cima da pia da cozinha, o banho interrompido por mãozinhas no box que te chamam e o interrompe, tudo isso vai como num passe de mágica. Assim como também vai embora a fantasia, a crença no Papai Noel, o “eu te amo” de supetão, o abraço apertado, a vontade de querer dormir agarradinho, o seu beijo que cura o dodói.

Eu sei que é difícil. Sim, eu sei o quanto você está exausta. Mas tudo isso irá passar. Quando sua vontade for somente uma: cavar e pular dentro, pense que realmente tudo irá passar. E passa.

Junto com vai também a conversa jogada fora no fim de tarde sobre princesas e heróis, a vontade de brincar de pique-esconde, a crença de que tudo que você diz é verdade, inclusive o “mamãe, vai comprar sim” às naves espaciais, as bonecas de porcelana, ao cachorro, hamster, papagaio e lobo que ele pediu de Natal. Vai embora também a inocência de contar sempre a verdade, mesmo que com isso venha a bronca ou o castigo. Eles aprendem com o passar do tempo que ser adulto é ser dono do próprio nariz, acreditam que assim é mais divertido, mais fácil. Não sabem que com o nariz arrebitado de dono de si vai embora o colo de mãe, a mãos passadas no cabelo depois do banho para que durmam e a crença que beijo e amor puro curam qualquer dor. Depois de um tempo sentirão falta de acreditar que toda dor pode ir embora desse jeito simples. Ô tempo bom! Coisa que só descobrimos muito tarde, quando não há mais volta.

Por mais que avisemos, eles não acreditam em nós. Somos da geração passada, que nada sabe, que nada tem a dizer, somos “a mãe”, expressão normalmente acompanhada de uma virada de olho, que para quem não sabe, é quase que um ritual de passagem para a vida adulta.

Por isso, eu sigo com os cuidados e entoando o mesmo mantra que de que logo tudo isso irá passar. Mesmo cansada mentalmente, emocionalmente e fisicamente, exijo que o meu coração entenda a falta que esses dias me farão no futuro. Do quanto irei pedir para o tempo voltar, da saudade que sentirei do cheirinho, das músicas infantis tocando ao fundo, da casa bagunçada que nada mais é que um rastro de vida, rastro de que alguém vive e é feliz dentro daquela casa. Em toda essa bagunça há vida, rastro de uma viagem ao espaço, de uma clínica veterinária, um bloquinho de carnaval, tudo criado por eles, para criatividade fértil, pela inteligência e tudo o que esperamos que uma criança saudável fizesse.

Eles ainda não sabem, mas eu os farei passar por todas as fases e esquecerei a casa propositadamente desarrumada, para o tempo ser só nosso. Esquecerei os dedos apontados para mim e focarei em viver esses dias que logo passarão. Em um piscar de olhos eles passarão. Os farei aproveitar a infância o quanto puderem, aproveitar os pais – inclusive essa que vos fala -, enquanto estão por aqui. Exigirei abraços cada vez mais fortes, cabaninhas destruídas no meio da sala, guerra de balão d’água nos dias de sol, pipoca e luz apagada para fingir ser cinema, dias à toa vendo TV grudadinho. Sim, exigirei viver tudo isso mais intensamente do que já tenho vivido. Mesmo cansada…

Porque infelizmente, tudo isso passa, tudo isso um dia passará e fará falta a todos nós. 

Sobre o Autor:

Sheila Mendonça

Sheila Mendonça é Relações Públicas e empreendedora. Inquieta, curiosa e amante por literatura, sempre viu nas crônicas de Mario Prata uma inspiração para transformar o cotidiano em textos bonitos e interessantes, que trouxessem leveza à vida com um toque de humor. Pensando nisso, criou o “Uai, mãe!?“, para dividir a rotina com os três filhos, contando suas dúvidas e receios, compartilhando com outras mamães sua experiência de forma leve e descontraída. Do site: Uai, Mãe!?



No Comments

Leave a Reply