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Uma História Real em Torres-RS: Do desrespeito à autonomia e Violência Obstétrica

Por Ana Oliveira. Saiba mais sobre o assunto aqui!

Hoje, primeiro de Abril de 2014, sentada amamentando meu caçula, em meio a lágrimas que rolam sem que eu consiga controlar, escrevo esse texto. Quero e almejo que seja uma reflexão de até onde estamos indo, que rumos estamos tomando, e o que nos restará quando somos invadidas como mulher em nossas vidas, decisões e intimidades. Que consequências isso pode trazer para nosso futuro e futuro de nossos filhos e famílias.

Ela é uma mulher, mãe de dois filhos nascidos de cesarianas. Estava gravida de sua terceira filha, prestes a dar a luz de forma natural. Monitorando o final da gestação e em perfeitas condições físicas e psicológicas. Ela iria realizar um sonho. Parir sua cria com amor e respeito. Foi invadida, furtada. Roubaram seus sonhos como quem rouba doces de uma criança. Obrigaram-na por meio de uma liminar judicial e a sair de sua casa em trabalho de parto para ceifarem novamente o seu desejo. Invadiram sua privacidade quando adentraram em sua casa, com policiais armados, no seu momento mais sublime. Foram contra tudo e todos, contra princípios, contra a OMS (Organização Mundial da Saúde), contra a MBE (Medicina Baseada em Evidências), e tornaram essa mãe, esposa e mulher um produto, mais uma em uma linha de produção terrível e injusta, sem direito de escolha e sem seu companheiro ao seu lado, contrariando também a lei federal do direito ao acompanhante.

Em frente a esses fatos o que poderíamos refletir? O que vai ser do interior, dos sentimentos e pensamentos dessa mulher? Ela queria parir sua filha. Ela queria qualidade e acolhimento para que sua rebenta fosse bem recebida ao chegar nesse mundo que para nós tem se tornado tão cruel e maldoso. Sua filha estava se entregando ao processo junto dela. E ambas fariam um RENASCER maravilhoso. Renasceria a mãe e nasceria a filha. Assim, como tem de ser. E teria uma importância inimaginável no meio familiar em que vivem.

A que nível chegou a Violência Obstétrica em nosso país? Todos os dias milhares e milhares de mulheres são vítimas, humilhadas, submetidas a procedimentos invasivos, grosseiros e grotescos, que deixam marcas não somente no corpo, mas para sempre na alma de cada uma. E essa Violência não tem o devido enfoque, passa como se fosse um acontecimento normal. Coisa que vem de anos e que agora tomou nome e forma. E que ainda é muito novo para as pessoas com pouco entendimento sobre o assunto. As vítimas devem falar, devem se expressar e juntas lutarem contra essa impunidade.

Tanta coisa para mudar, tantos crimes para combater, inclusive esse, e a polícia, a justiça e o Estado, que deveriam zelar para que mulheres como ela tivessem respeito pela forma e nascimentos de seus filhos se dispõem a compactuarem com essa Violência de tal forma a invadir o íntimo de uma família. Chegaram ao extremo. Colocaram a gota que faltava para o copo transbordar. Plantaram o gosto amargo da sede de justiça no coração de cada mulher que se sentiu como ela, lesionada. Não ficaremos calados diante de um acontecimento desses. Apropriaram-se da mulher como se o corpo e o filho fossem deles, fossem do sistema.

Roubaram-lhe sua identidade, seus instintos de mãe e mulher. Devemos nos colocar na pele dela, sentir as dores dela, para juntos lutarmos por justiça, por adquirir um direito que deveria ser nosso desde que nascemos, de ter controle sobre nosso próprio corpo, de sermos donas dele.

Precisamos abrir os olhos, enxergar as verdades, tomar posse do que é nosso, fazer validar nossos direitos como mulher, fazer um alvoroço pra que nos escutem. Fazer o mundo nos olhar, olhar-nos com dignidade, com valor. Precisamos mostrar e provar para o mundo que os nossos corpos nos pertence, eles são nosso território. E devemos fazer isso por nós, por ela, e pelas nossas filhas e netas que ainda terão uma vida pela frente, e merecem igualdade, dignidade e respeito.

Estamos de luto por essa mulher, por seus planos e sonhos roubados, por seu corpo invalidado!

Imagem por Tainá-kan Nobre.

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