Família, Filhos, Gente que esclarece

A sexualidade da criança pequena

Por Luiza Pinheiro-Psicopedagoga da Clínica Base

A infância é uma fase de tranquilidade e alegria, de pureza e inocência. E em meio a mamadeiras, fraldas, jogos, e brincadeiras, surgem os questionamentos sobre a sexualidade, a formulação de teorias a esse respeito, e os diversos atos como tocar o próprio corpo, ou o do colega, beijar na boca, mostrar as partes íntimas, realizar brincadeiras que expõem questões e experiências com a sexualidade, dentre outras manifestações. E agora, mãe? E agora, pai?

Ainda hoje a maioria de nós tem uma ideia da infância como pura, inocente e, por isso, assexuada. Essa ideia provoca uma dificuldade muito grande em lidar com as manifestações de sexualidade das crianças. Além disso, todos nós, mesmo aqueles que não veem a infância como assexuada, quando nos deparamos com manifestações da sexualidade infantil somos obrigados a confrontar nossa própria infância, o que nos leva, muitas vezes, a negar a existência da sexualidade das crianças para não ter que enfrentar nossos próprios conflitos e frustrações.

É obvio então, que o adulto geralmente se sente muito desconfortável no momento em que identifica uma manifestação que considera sexual em uma criança, ou quando é questionado por ela sobre o assunto. Esse mal-estar se agrava quando a situação ocorre com crianças pequenas. Afinal de contas, as manifestações de sexualidade e o interesse pelo tema não parecem nada apropriados para crianças que mal deixaram de ser bebês, certo? Bom, não é bem assim.

Freud, criador da psicanálise, descobriu há muitos anos que as pulsões sexuais das crianças se desenvolvem desde o nascimento e sua vida sexual costuma se expressar visivelmente desde a primeira infância, inicialmente apoiada em funções de preservação da vida e, em seguida, tornando-se independente delas. Para entender melhor, vamos pensar no exemplo da amamentação, que costuma ser a primeira vivência sexual do indivíduo. Nesse momento íntimo entre mãe e filho, o bebê procura se nutrir não só do leite materno, mas também de uma relação afetiva que não se reduz à satisfação alimentar, apesar de se apoiar nela. Assim, ele procura o alimento por necessidade física e instinto, ao mesmo tempo em que busca uma nutrição afetiva em contato com o corpo da mãe. Claro que isso se aplica também à criança que toma mamadeira no colo do pai, ou de outro cuidador. Há ali uma relação de afeto e prazer, importantíssima para o bebê.

Logo após esse período em que a criança expressa sua sexualidade e alcança o prazer através de funções fisiológicas e relacionadas à sua sobrevivência, vem o autoerotismo infantil, que é nada mais, nada menos, do que a busca por formas de prazer derivadas de qualquer área ou órgão do corpo. Este momento é o mais conflituoso para o adulto, já que a criança passa a experimentar inúmeras partes de seu corpo obtendo visível prazer com suas descobertas, o que desconcerta qualquer um. É importante compreender, no entanto, que esse prazer obtido com o próprio corpo na primeira infância nada tem a ver com a sexualidade genital ou com a relação sexual da forma como é vista nos adultos. Um exemplo recorrente e facilmente observável na maioria dos bebês durante esse período de descobertas é a forma como na fase oral, em que descobrem o mundo pela boca, muitas vezes eles ficam muito tempo entretidos em uma repetição de lamber ou morder algum objeto.

Portanto, se a criança está fazendo algo que lhe proporciona prazer físico, não há motivos para susto. Ela está apenas descobrindo seu corpo e o mundo que o cerca, de forma que diante dessas manifestações tão naturais e comuns em todas as crianças cabe ao adulto a tarefa de não interpretar a sexualidade infantil atribuindo-lhe significados adultos, mas, reconhecer nela uma forma de comunicação da criança e sua demanda de amor. Preparando-se assim, para o grande desafio da próxima fase do desenvolvimento sexual das crianças: o de responder àquelas perguntas sobre o sexo e a sexualidade.

Sobre o Autor:

Do site:



No Comments

Leave a Reply