Experiências, Gente que compartilha

Os heróis que nossos filhos precisam admirar

Por Sheila Mendonça

“Mamãe colocando as crianças na cama.

– Mamãe, alguma coisa pode nos machucar depois do abajur aceso? – Pergunta Michael

– Não, querido. Eles são os olhos que a mamãe deixa para vigiar os filhos dela.

– Mãe, você tem que ir à festa?  – Pergunta Wendy.

– É, mamãe. Você não precisa ir. O papai pode ir sozinho. Por favor! – Imploram os irmãos mais novos.

– Sozinho? O papai é um homem corajoso, mas vai precisar de um beijo especial para enfrentar os colegas hoje. – Explica a mãe.

– Papai? Corajoso? – Indaga Wendy

– É que existem vários tipos de coragem. Existe a coragem de pensar nos outros antes de si mesmo. E o seu pai nunca empunhou uma espada nem usou uma pistola, ainda bem. Mas ele fez muitos sacrifícios pela sua família e abriu mão de muitos sonhos.

– Onde foi que ele guardou? – Pergunta Michael, o mais novo.

– Guardou numa gaveta. Às vezes tarde da noite, nós os tiramos de lá para admirá-los. Ficou cada vez mais difícil para ele fechar a gaveta. Mas ele fecha. E por isso é um bravo! ”

(Filme Peter Pan, 2003. Universal Pictures)

 

Sábado à noite. Abro o Netflix e escolho um filme que não faz parte da lista de prediletos dos meus filhos, Peter Pan. O intuito é apresentar novas possibilidades, abrir a mente ao que há de novo no universo deles, já que Peter Pan já faz parte da infância de tantas pessoas, inclusive da minha. Gosto de fazer programas, ler livros, filmes que trazem um pouco da minha infância também. Isso estreita laços, dá um gostinho nostálgico e sem perceber, estamos brincando da mesma forma que brincávamos quando éramos crianças, gargalhando e nos divertindo com coisas bobas. Maternidade pode sim, ser algo prazeroso e divertido. Por isso a escolha desse filme. Eu o adoro! Adoro filmes que abrem as portas para um bom livro, coisa que pretendo fazer, comprando alguma obra que conte mais histórias do menino que não crescia nunca.

Estávamos todos sentamos assistindo, inclusive o papai, que apesar da distração do celular, acompanhava a história junto com os pequenos. De olhinhos arregalados enquanto ouvia Wendy narrar mais uma aventura com o temido Capitão Gancho, eles se surpreendiam com cada detalhe da narrativa tão eufórica da garota.

Até que nos deparamos com a cena narrada acima. Me emociono lembrando da quantidade de sonhos que tenho engavetados, alguns que nunca poderei realizar, ficaram anos-luz da realidade que tenho hoje, outros, à espera do momento perfeito para a realização. Coisa que pode demorar, sendo a minha prioridade outra: cuidar dos meus filhos e fazê-los crianças saudáveis e felizes. Ao olhar para o lado envergonhada com a lagrima que escorria no meu rosto, me deparo com um marido tão emocionado quanto e que pergunta:

– Será que esse pai sou eu?

A pergunta ficou martelando na minha cabeça e assim ficou por dias, ou melhor dizendo, por madrugadas.

Não seria essa a hora de mostrarmos aos nossos filhos quem realmente são os heróis da vida deles? Quem são os bravos que lutam diariamente pelas conquistas em família, nunca pensando no singular? Lógico, pedir que uma criança entenda a profundidade da abdicação dos pais da própria vida pela felicidade dos filhos, é demais para a cabecinha tão ingênua deles. Infelizmente, existem coisas que só entendemos quando vivemos, essa é uma delas. Apenas nos momentos em que temos que tomar essas mesmas decisões, passamos a entender as escolhas de nossos pais, o quanto abriram mão de seus sonhos por nós. Contudo, creio que nos cabe a parte de cultivar o orgulho no coraçãozinho dos filhos das escolhas que nós, pais, fazemos. Não importa sua profissão, mostrar o quanto trabalhamos duro para dar-lhes o que há de melhor.

Lembrei agora de um priminho meu. Saiu andando pela casa buscando teclado velho de computador, aparelho de telefone que estava estragado, caixinhas de papelão, papeis velhos e canetinhas. Montou um escritório no chão da sala e ficou lá, fingindo digitar no teclado velho, falando ao telefone. Perguntei o que era aquilo tudo, do que ele estava brincando?

– Estou brincando de ser o meu pai. – Foi a resposta.

Logo depois chega o meu tio, nervoso pelo dia estressante de trabalho e reclamando da bagunça que o filho havia feito, espalhando toda aquela tralha pela sala. O chamei no canto e disse:

– Sabe o que ele estava fazendo? – Ele acenou com a cabeça que não – Ele estava fingindo ser você, por que ele tem orgulho do pai e de tudo o que ele faz.

Seu rosto se iluminou. Estava ali um pai feliz e realizado.

Aqui em casa, contei para o Samuel tudo sobre a profissão do pai, de quando serviu o exército, todas suas proezas por lá e até da medalha que ganhou salvando as pessoas. Pensei que ele havia esquecido, pois nunca mais tocou no assunto. Até certo dia, ao vermos um filme, Brigada 49, onde os bombeiros são os heróis da história. O filme é bastante emocionante e achei que ele nem estava prestando atenção, entretido com os brinquedos. No final, Samuca me olha com os olhos marejados e diz:

– Mamãe, quando eu crescer, quero ser igual ao papai: ajudar pessoas e ganhar uma medalha! Para as pessoas fazerem isso – e bateu continência – para mim.

Pedi que ele contasse ao pai quando chegasse seus planos para o futuro! E pude ver mais uma vez, o rosto de um pai se iluminando de orgulho, sentimento não de dever cumprido, coisa que ele faz diariamente ao cuidar de nós, mas de realização, certeza do bom trabalho que está fazendo sendo um pai presente e amoroso.

Que possamos, pelo menos alguma vez na vida, experimentar esse sentimento. Termos orgulho de quem somos, tirar aquele pensamento de vida “inacabada” por causa dos sonhos engavetados. Que no nosso coração nasça a certeza do caminho que trilhamos e apesar dos sonhos deixados de lado ou das conquistas antigas empoeiradas na estante, há aquela conquista diária com os filhos, o dia a dia com eles. Para nossos filhos, somos as mulheres mais lindas do mundo, as mais sabichonas e espertas, até poderes de super-heroínas adquirimos com a maternidade, afinal, onde mais no mundo um beijo cura toda e qualquer dor?

Exercite o orgulho de si mesma, olhe-se com orgulho no espelho e diga para o marido fazer o mesmo! Há muito o que comemorar, acredite! Ou melhor acredite-se!!

Sheila Mendonça é Relações Públicas e empreendedora. Inquieta, curiosa e amante por literatura, sempre viu nas crônicas de Mario Prata uma inspiração para transformar o cotidiano em textos bonitos e interessantes, que trouxessem leveza à vida com um toque de humor. Pensando nisso, criou o “Uai, mãe!?“, para dividir a rotina com os três filhos, contando suas dúvidas e receios, compartilhando com outras mamães sua experiência de forma leve e descontraída.

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