Cotidiano, Gente que inspira

O quê consome todo o meu tempo ao cuidar dos filhos

Por Marcos Bausch

Outro dia um amigo me pediu pra explicar o quê, exatamente, consome todo o meu tempo ao cuidar dos filhos, a ponto de não conseguir nem ler um livro.

Eu pensei em contar pra ele que quando solteiros ou casados o ato de acordar é sempre igual, mas com filhos cada dia a gente acorda de um jeito diferente. Às vezes de sobressalto, às vezes sendo chamados, às vezes na correria e só de vez em quando acordamos porque o despertador tocou;

Queria contar pra ele como o café da manhã é um misto de pão, geleias, queijo, catotas, café com leite, café com suco, café com manteiga, café na roupa, pão no chão, geleia na bochecha, manteiga na mão e queijo espalhado;

Fiquei com vontade de contar que criança não se entretém sozinha, lendo um livro calmamente deitada no sofá.

Criança quer os pais por perto pra correr, andar de velotrol, brincar de pega-pega, passear pelo bairro, pular em cima do pai, desenhar no chão e na mão e na mãe, molhar as plantas e o pátio e o pai. E que presença verdadeira é participar disso tudo;

Já tava quase contando como, para uma criança, o mundo é uma novidade atrás da outra, uma aventura que emenda na outra, um mistério insolucionável constante, uma descoberta a cada pedra e como ela tem uma vontade enorme de compartilhar isso com quem quer que esteja ao seu lado;

Lembrei que existem, sim, as pequenas ilhas de tempo e respiro que surgem quando a gente coloca as crianças para tomar banho de banheira (e elas inundam o banheiro) ou quando elas vão pra escola e a tarde inteira passa num estalar de dedos, mas lembrei, também, que essas pequenas ilhas são minúsculas porque são usadas para preparar a comida, arrumar a casa, fazer compras e resolver a infinidade de micro-logísticas do dia a dia;

Me passou pela cabeça contar que fazer uma criança adormecer é uma verdadeira epopeia: longa, demorada, cheio de histórias, músicas, posições de yoga, convencimentos, persuasões e fadada ao fracasso no menor erro. Seja tossir antes dele adormecer ou ranger demais o chão ou ligar a luz da sala na hora errada;

Quase saiu pela boca contar o quanto estamos exaustos e fatigados quando o dia acaba e finalmente conseguimos sentar e conversar como casal. O quanto estamos sem energia quando a noite cai, que a única proposta válida é: “vamos dormir?”;

Mas só consegui dizer: “Sei lá. É tudo…. mas é nada ao mesmo tempo. Talvez um dia você entenda.”

 

Sobre o Autor:

Marcos Bausch

Do site:



No Comments

Leave a Reply