Família, Gente que esclarece, Maternagem

Nem princesas nem cientistas, apenas crianças

Nem princesas nem cientistas, apenas crianças por Renata Penna publicado originalmente no blog Uma vez mamífera

Minhas filhas não são princesas. Minhas filhas não são cientistas.

Minhas filhas têm 9 e 5 anos. Elas são crianças. E só – se é que se pode dizer “só” ao referir-se a algo tão vasto quanto ser criança.

Minhas filhas, do alto de seus 9 e 5 anos, têm o mundo todo aos seus pés, todos os sonhos, todas as fantasias, todas as possibilidades ao alcance de seus dedinhos curiosos. E se isso é tanto, e tão bonito e tão rico, por que deveria eu interferir, direcionando seus olhos, suas atenções e seus interesses para aquilo que parece, diante da minha visão adulta e pessoal das coisas, mais bacana ou digno de atenção?

O que eu desejo para elas? Bem, muitas coisas. Antes de tudo, que cresçam livres e que sejam felizes. É o meu desejo mais inteiro, mais sincero. Diante dele, todas as outras expectativas vão ficando pequeninas, até sumirem feito poeira ao longo da estrada. Porque qualquer coisa além disso é projeção, é peso colocado desnecessariamente sobre suas costas miúdas.

Eu espero que minhas meninas possam fazer seus caminhos enquanto caminham, como dizia o poeta. Que tenham liberdade para descobrir o mundo por si, para escrever sua própria história, para compreender por si mesmas do que gostam e do que não gostam, para desvendar seus próprios infinitos – eles pertencem a elas, e não a mim. Cada indivíduo carrega consigo o seu universo. Que elas descubram os delas, e mergulhem, e desvendem por si as dores e as delícias de serem quem são.

A tal onda do “incentive sua filha a ser cientista”, “façamos com que nossas meninas gostem de ciências”, sinceramente, me faz torcer o nariz. Ciências são para todos, assim como todos os outros interesses, assim como todos os brinquedos, todas as cores, todas as profissões, todos os gostos, todos os hobbies, todas as atividades, todos os estilos de vida, são para todas as pessoas, independente de gênero. Mas eu não quero incentivar minhas filhas a serem coisa nenhuma, nem fazer com que elas gostem disso ou daquilo apenas porque me parece bacana gostar disso ou daquilo.

É claro que desejo, como parte da maravilha de ver um filho crescer e dividir com ele aquilo que é nosso e que faz parte da nossa alegria diante da vida, compartilhar com elas aquilo que faz sentido para mim – tudo o que me põe um brilho nos olhos, o que me instiga e apaixona. Mas compartilhar o que nos maravilha é diferente de direcionar – e se eu confundo uma coisa com a outra, acabo perdendo a incrível oportunidade de deixar que elas também me apresentem coisas e possibilidades e lindezas que eu desconhecia, que me apontem detalhes bonitos que eu não via no mundo, que me coloquem diante dos olhos e me plantem no coração alegrias novas, cuja possibilidade eu jamais havia imaginado. Que me surpreendam – e que bonito é, poder surpreender-se!

Cada ser humano escolhe seu próprio caminho, descobre por si de que é feita a sua liberdade. O que há de libertário em que eu queira, do alto da minha arrogância e dos conceitos que são apenas meus, diante de uma infinidade de outras possibilidades, determinar qual o caminho “de libertação” que minhas filhas devem seguir?

Se deixamos de apresentar as meninas à cartilha da delicadeza, das mocinhas prendadas, educadas e românticas como princesas dos contos de fadas, para empurrar-lhes goela abaixo outras cartilhas (sejam elas quais forem – a cartilha da cientista, da roqueira, da intelectual, da artista ou qualquer outra), estamos apenas enfeitando a gaiola, mudando seu aspecto – mas ela não deixa de ser uma prisão. Sem permitir-lhes a possibilidade de ser e escolher por si, continuamos determinando quais caminhos devem ser seguidos e quais não, o que é certo, aceitável e bom, e o que é errado, inadequado e ruim.

Tanto em uma realidade quando na outra, falta-nos a compreensão de que nossos filhos não são, de fato, nossos. Não nos pertencem, tampouco seus caminhos, suas escolhas, seus gostos, suas aptidões. Falta-nos o entendimento e a aceitação de que crianças são indivíduos, não são uma folha em branco para que nelas possamos escrever o que mais nos sirva, ou agrade, ou pareça correto. Filhos não vêm ao mundo para provar nossas teorias, nem para empunhar nossas bandeiras, nem para realizar as nossas expectativas, muito menos para aliviar as nossas frustrações.

Meninas (e meninos) não precisam ser cientistas, nem princesas, nem modelos, nem artistas, nem nem nem. Meninas e meninos precisam ser crianças. Pássaros livres. Com os braços abertos diante da vida, com o coração apaixonado e disposto diante dos detalhes do mundo. Com olhos curiosos diante de tudo o que existe, voando de asas abertas sobre todos os espaços, e experimentando a possibilidade de descobrir dentro de si e em nenhum outro lugar o que lhes apaixona. E a partir daí, é com eles e não conosco. É sobre eles, e não sobre nós.

Eu torço para que consigamos permitir que cada um – menino, menina – possa escrever sua própria história, sem carregar nos ombros o peso da obrigação de lutar uma batalha que não escolheu. Que cada um possa descobrir por si a que veio, e qual a marca que quer deixar no mundo.

E contemplando essa liberdade bonita que eles experimentam com tanta inteireza, que possamos também aprender um pouco. A viver, e deixar viver. A não querer que os outros se guiem pelos nossos conceitos de vida.

Quem sabe aí seremos, nós também, mais livres. E mais felizes.

Fonte da Imagem: Uma vez mamífera

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