Filhos, Gente que esclarece, Maternagem

História de uma mãe

Uma mulher encontra um bom rapaz e eles se apaixonam. Então, resolvem se casar. A mulher fica grávida. Dentro da barriga dela tem um embriãozinho que logo vai se tornar um bebê. Ele, aos poucos, vai crescendo e se desenvolvendo, mas bem devagar, dando tempo para a mulher se acostumar com aquela presença. Nesse momento aquela pessoinha bem pequenininha é uma parte do corpo da mulher, está dentro dela e com ela divide a comida, as sensações, e a vida. E de repente, aquela mulher não é mais só mulher, ela agora é, também, MÃE.

A partir desse momento tem outra pessoa que depende dela – e depende inteiramente! -, irá depender dela para sobreviver por pelo menos dois anos -contando o período de gestação e os primeiros meses de vida. Agora, todas as atenções se voltam para o bebê! Tanto da mãe – “o que devo comer na gestação para nutrir melhor meu bebê?”, “como será quando ele nascer?”, “será que vai ter cólicas?”, “vou arrumar as roupinhas e o quartinho mais lindos pra ele!” – como de todas as outras pessoas que a rodeiam – “que barrigona bonita!”, “é menino ou menina?”, “quando vai nascer?”, “como vai se chamar?”. Aquele bebê é a pessoa mais importante do mundo e merece ser muito bem recebido por todos. E a mulher, que agora assumiu o papel principal de mãe, encabeça a tarefa de fazer o filho se sentir bem e confortável sempre.

Mais tarde o bebê cresce um pouco e já não depende inteiramente da mãe, já não demanda atenção em tempo integral como antes. A mãe vai, aos poucos, se adaptando a isso. Vem então a infância, e aquela ‘criaturinha’ que antes era apenas um pedaço do corpo da mãe, começa a fazer questão de mostrar que é uma pessoa com gostos e vontades próprias. A mãe vai tentando se acostumar. Aí chega a adolescência, fase sofrida da vida, não só para o adolescente, como também para a mãe. Nessa época o filho não tem paciência para perguntas nem para regras, quer liberdade, independência e, por isso, acaba se afastando um pouco da família. Essa é uma das partes mais difíceis! Quem um dia já esteve dentro do corpo da mulher e mesmo fora dele dependia dela e contava com ela o tempo inteiro, agora exige uma distância, exige seu próprio espaço. A mãe, tem que se acostumar com aquilo. Tenta entender que o filho está crescendo e que a vida é assim mesmo. Será que é fácil para ela? Finalmente ela se acostuma com aquela nova forma de convivência com seu ‘bebê’ – que já é praticamente um adulto agora – mas logo chegam outras mudanças nessa relação. O filho, que a essa altura já se formou na faculdade e já trabalha, anuncia que vai sair de casa, vai morar sozinho. Anos e anos cuidando, convivendo e se preocupando com aquela ‘criaturinha’ e ela abandona o ninho assim, de uma hora pra outra. Parece que foi ontem que ele era apenas um bebê indefeso. Agora a casa vai ficar vazia, a mãe, depois de tantos anos, tem que se desapegar daquela rotina de cuidados com o filho, tem que se lembrar de como é a vida sem a presença constante dele, relembrar como era ser mulher, só mulher. Nesse momento, a mulher, já mais velha, madura e experiente, tem a oportunidade de voltar novamente a olhar para si (coisa que as mães muitas vezes deixam de lado – em maior ou menor proporção – quando um filho entra em cena).

Essas mudanças na relação da mulher consigo mesma e com os filhos são inevitáveis e necessárias. Mas será que elas são fáceis? Será que alguma mãe, desde que o mundo é mundo, já esteve preparada para isso? Não parece tarefa difícil demais deixar os filhos partirem? Penso que esta história, com suas variações, é a história da maioria das mulheres que se torna mãe: amar, criar e libertar. Fico me perguntando como é para as mães essa tarefa.

 

Por Luiza Pinheiro: sócia da Clínica Base, graduada em Pedagogia pela UFMG, Especialista em Psicanálise com Crianças e Adolescentes pela PUC-MG, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela UEMG, e Mestranda em Psicologia pela UFMG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à infância.

(www.clinicabase.com)

 

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