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O Renascimento do Parto – Uma volta à origem da minha própria história por Dani Brito publicado originalmente no blog Balzaca Materna

Estive presente na pré-estreia do filme O Renascimento do Parto aqui em Florianópolis onde tive o privilégio de conhecer muitas pessoas que trabalham em prol da humanização no parto. Pude confraternizar com Erica de Paula e Eduardo Chauvet, Mayra Calvette, Roxana Knobel, com minhas amigas queridas Gabi Zanella e Lígia Sena e outras mulheres importantes da humanização. Foi incrível sentir a energia delas.
Entrei na sala escura bastante concentrada, ansiosa e com uma expectativa nas alturas. Não pude conter a emoção já nos primeiros minutos do filme que é: denso, leve, inspirador e muitas vezes incômodo. Traz questões absolutamente necessárias para a mudança de paradigma que se impõe na realidade obstétrica brasileira. O filme veio para referendar o discurso e o trabalho dos ativistas do bem nascer que há anos estudam e enfrentam o sistema, propondo mudanças. Nele não há achismos e a discussão vai além, muito além, da dicotomia cesária x parto normal.
Questiona-se o parto medicalizado, mercantilizado e a cesariana – procedimento médico – fica reservada para casos em que há de fato, uma indicação.
Não há a responsabilização de um único culpado, pois entende-se o assunto como uma questão multifatorial.
Profissionais qualificados, respaldados por evidências científicas derrubam um a um os mitos que sustentam o sistema e questionam a naturalização da violência institucional. Por que achamos que essas intervenções absolutamente desnecessárias, que não constam em nenhum livro de medicina, normal? Que ideologia é essa que nos faz defender o indefensável?
As cenas mostram com crueza a violência a que nos submetemos, independente da via de parto. Nessa hora sentimos o desconforto da verdade e vemos como nossas convicções estão sedimentadas por uma medicina paternalista onde o médico se coloca como autoridade máxima, como o detentor do saber.
Até há bem pouco tempo atrás todas as mulheres sabiam parir. Todas elas tinham seus filhos em lugares tranquilos e ao lado de outras mulheres que lhes davam segurança e amparo. Em que momento da história passamos a não saber fazer aquilo que já nascemos programadas para fazer?
No filme, uma argumentação do médico obstetra Ricardo Herbet Jones ilustra bem essa necessidade de racionalização de um evento puramente fisiológico: “o parto mexe com as três questões mais intensas da humanidade: a vida, a morte e o sexo, daí a necessidade da humanidade ritualizar esse evento, tão fisiológico, tão parte da mulher. Sabendo disso, não fica mais fácil perceber que esses rituais não são pro bem, pelo melhor, pela saúde, mas apenas pelo medo da intensidade da vida?”

 

Esses questionamentos são urgentes num país com a maior taxa de cesarianas do mundo. Chega a 90% na rede suplementar de saúde. O que justifica a adoção indiscriminada de cirurgias senão mover a indústria do nascimento? Qual o problema das brasileiras? Somos todas defeituosas?
Existe mesmo uma escolha isenta no atual contexto obstétrico? Ou nos levam à descrença da nossa capacidade inata, nos fazendo reféns de uma medicina intervencionista? Nos dizem que a dor é insuportável, que o ato de parir é feio, desnecessário e sujo. A cultura contamina nossa determinação em parir, mina a nossa confiança e nos faz adepta da praticidade, dispensando o ritual iniciático que nos transforma em mães.
Agora, foi na fala de Michel Odent, que meu mundo caiu, pela seriedade da questão levantada por ele: “até recentemente, o amor era um tema para os poetas, filósofos e romancistas. Mas hoje é estudado por cientistas. Hoje nós podemos entender que a capacidade de amar é em grande parte organizada e construída durante o período em torno do nascimento. Para dar à luz a mulher precisa liberar uma mistura de hormônios. De acordo com cientistas modernos, trata-se de um coquetel de ´hormônios do amor´. Em todo o planeta, o número de mulheres que dá à luz a seus bebês somente graças à liberação desse coquetel está chegando a zero. Zero, na era da ocitocina sintética e da cesariana fácil e rápida. Atualmente, não consigo pensar em uma pergunta mais importante que essa: qual o futuro da humanidade nascida por cirurgia cesariana ou pelo uso de ocitocina sintética? Quando falamos de ocitocina sintética, é uma forma de substituir o hormônio natural que as mulheres deveriam liberar por si próprias. É óbvio que quando uma mulher tem seu filho por cesárea ela não está no mesmo equilíbrio hormonal que uma mulher que dá à luz por ela própria. Isso significa, em outras palavras, que podemos tornar os hormônios do amor redundantes inúteis no momento crucial em torno do nascimento. Isso é inédito na história do nascimento e provavelmente na história da humanidade.”
Nessa altura percebi que o filme não trata só sobre a nossa realidade obstétrica, mas sobre o futuro da nossa humanidade.
Somos levados a questionar sobre o caminho que estamos percorrendo e de que maneira estamos recebendo nossas crianças neste mundo; sobre essa cultura imediatista em que impera a lei do menor esforço e totalmente desconectada que estamos vivendo. Precisamos transpor as barreiras da violência sob todos os aspectos, para que iniciemos a revolução, buscando ter de volta a nossa capacidade de amar.Ao fim do filme, quase toda a plateia enxugava suas lágrimas. Durante o debate que se seguiu, várias pessoas pediram a palavra e quase todas as que se manifestaram faziam a pergunta que cada um dos presentes se fazia: o que podemos fazer, como sociedade, para mudar o sistema?

Saímos de lá impactados, porém muito esperançosos. O filme não trata de possibilidades perdidas mas principalmente, das oportunidades que podemos criar para os outros. A essência do ativismo é esta: não querer para os outros o que não quero pra mim.

* * * * * *
Saí do cinema chorando e aproveitei que estava sozinha dirigindo por uma cidade chuvosa, fria e vazia para chorar mais um pouco, já que não conseguia parar de pensar no nascimento da Bia, que foi de longe, o momento mais marcante da minha vida, mesmo tendo sido violento.Nunca escrevi um relato de parto rico em pormenores, explicitando todos os meus anseios, os meus medos e minhas superações seja por medo da extensão do texto, seja por falha na minha memória que vislumbrava apenas aqueles fragmentos eleitos como importantes. Sempre que o faço acrescento um dado novo, o que me dá a impressão de estar sempre reescrevendo um evento do passado, estático. Talvez porque tenha me faltado a distância necessária para contemplar este parto em seu conjunto do início ao fim.

Foi há dez anos e eu tinha apenas vinte e três anos, nova e imatura. Lembro de ter corrido para o hospital com minha tia e meu marido ainda nas primeiras contrações. Confesso que a dor que sentia com elas me deixava ainda mais assustada. Chegamos lá, um hospital público, por volta da meia noite. Estava certa de que teria a companhia da minha tia e do meu marido comigo durante todo o processo. Assim assegurou meu obstetra, que era chefe dessa unidade, meu ginecologista pessoal e colega dos meus tios. Enquanto dava entrada, preenchendo aquela papelada, minha tia se apresentou como chefe da farmácia de outra unidade do mesmo hospital. Nesse momento chegou o médico plantonista, nos olhou de cima abaixo, sem dizer uma palavra, me puxou pra dentro. Segui com a confiança que os meus estariam vindo atrás de mim. Ao olhar para trás, vi minha tia chorando de raiva e o Paulinho com as mãos esticadas, como querendo me tocar, se despedir. Fecharam a porta e esta foi a última visão que tive deles. A lei que conferia direito a acompanhante só entraria em vigor um ano depois.

Fiquei perambulando pelo corredor com aquela camisola azul, ou seria verde? sem saber ao certo o que deveria fazer, como deveria me comportar. Ninguém me dirigiu palavra. As contrações apertaram e comecei a chorar. Gritando eu pedia ajuda. Não conseguia me manter em pé, muito menos deitada. Meus gritos começaram a incomodar aquele médico que aparentava ser um pouco mais velho que eu. Ele se aproximou e por um átimo sustentei a esperança de que ele pudesse me ajudar de alguma maneira. Ao chegar bem perto, apontou o dedo para uma sala e dirigindo-se à enfermeira, gritou a ordem: manda ela pro sofredouro.
Nem sabia que ainda existia essa sala, para essa finalidade, com esse nome. A enfermeira obedeceu e me deixou lá. Quando saiu, fechou a porta. Estava sozinha. Sozinha, no momento mais importante da minha vida. Gritei, chorei, me contorci. Nunca me senti tão assustada e tão desamparada. Não sei precisar quanto tempo permaneci sozinha naquela sala de paredes esverdeadas, mas foi o suficiente para eu rever toda a minha trajetória de vida. Queria a minha avó, queria meu marido, queria colo. Nesses momentos me sentia tão infantil, na acepção mais pura da palavra. Como uma criancinha, eu queria colo. Não queria sentir dor, não queria ter aquela filha. No segundo seguinte me via como responsável por aquela vida. Minha filha queria nascer e cada contração sinaliza que era hora de eu crescer.
Muitas horas se passaram até que a enfermeira, a mesma que havia me confinado, foi oferecer o seu apoio. Desconfiada, perguntei o porquê da mudança repentina. Rindo um riso envergonhado, ela disse que o médico estava “operando”. Ela me ofereceu um banho quente e com cuidado fez uma massagem nas minhas costas (com óleo de amêndoas paixão). A massagem não era nem um pouco confortável, mas o toque humano sim.
O dia estava clareando e não parava de pensar na minha tia e no meu marido que estavam do lado de fora.
Perto das seis horas da manhã, fizeram o último toque e me disseram que estava na hora. Estava exausta e cambaleando fui conduzida para a sala de parto. Pediram que deitasse na cama ginecológica mas consegui dizer com um fio de voz que queria ter minha filha de cócoras. “Deita logo”. Obedeci. Nenhuma contração era eficiente. Nenhuma contração trazia minha filha para perto de mim. A equipe de mascarados começava a dar sinais de nervosismo. “Tenta de novo”. “Faz mais força, menina”. Não sei como, mas a força vinha lá do íntimo. Ainda assim, ineficiente. A líder dos mascarados beirou à histeria quando começou a bater nas minhas pernas gritando com um som abafado pela máscara ” VO-CÊ-VAI-MA-TAR-A-SUA-FI-LHA”. Nesse momento, vi duas mulheres trazendo uma espécie de cordinha. Queriam me amarrar nos estribos.
Não me perguntem como, já que naquele momento estava completamente exaurida, mas num ímpeto, rompi a barreira da inércia, subi na cama e me posicionei de cócoras, que era a minha vontade desde o início. A enfermeira que me ajudou resolveu fazer um pouco mais por mim e trouxe uma barra para que eu pudesse manter o equilíbrio. Chamem do que quiserem, mas chamo isso de instinto.
Naquela posição senti um domínio maior sobre o meu corpo e não demorou para eu ter a Bia em meus braços. Com a decisão de subir na mesa e não me deixar submeter, a menina assustada cedeu lugar a uma mulher capaz de tomar a melhor decisão para a sua filha.
A menina nasceu e a mulher cresceu.
Cresci quando vivi essa possibilidade de transcender meus limites, quando vi a minha potência como ser humano e a coragem de procurar e encontrar novos caminhos. E é com muito orgulho que hoje olho pra minha filha e digo que fui até a origem para buscá-la.Depois de trinta minutos no oxigênio, recebi minha filha em meus braços. Contemplei. Beijei. Cheirei. Chorei. Nunca me sentira tão mãe, tão dela.

Ao sair dessa sala para ir à enfermaria, sentada numa cadeira de rodas com a bebê nos braços, pude ver meu marido e minha tia através de um portão. Ela segurava um terço e ele tentava segurar a minha mão. Pai e filha se conheceram através destas grades.

Faço minhas as palavras da Andrea Santa Rosa, esposa do Márcio Garcia e mãe de três filhos: “Eu não podia passar por essa vida sem a experiência de parir um filho.”
Tome o poder para si.
Renasça.
Suba na mesa.
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