Gente que compartilha, Histórias que Emocionam

gente que compartilha o relato de parto do Matheus

Palavras de uma mãe de bebê pélvico por Musa Magalhães originalmente publicado no Blog Mamãe Musa

Tenho andado bem ocupada. Matheus está lindo, maravilhoso, andando que é uma beleza. Essa semana foi crucial na aquisição de sua firmeza para andar e ele despontou. Já nos puxa pela mão e quer conquistar o mundo, o que toma bastante do meu tempo e merece todo destaque em post especial. Vocês percebem pela ausência de posts, e pela baixa atualização da minha página que há muito tempo evito fazer qualquer coisa quando ele está acordado tamanha a saudade que sinto no trabalho e procuro estar de corpo e alma interagindo nas brincadeiras dele. Aí vocês podem perguntar: E enquanto ele dorme? Não poderia passar um tempinho no blog? Então vou contar pra vocês. Tenho andado reflexiva há algum tempo. E por causa disso me recolhi para pensar, para me encontrar em questões que para mim antes não importavam. A verdade é que a Musa que existia antes do Matheus nascer já não existe mais. Existe uma Musa que depois de leituras de livros, relatos e de uma enxurrada de informação se sente um pouco indignada. Existe uma Musa que passou pela culpa por não ter se informado, mas depois se conformou por saber que a culpa não foi tão sua, mas da profissional em que confiou o nascimento do seu filho. E quando passou esse momento da culpa por não ter buscado informação, por ter sido levada a reproduzir o que frequentemente acontece num sistema em que médicos mentem que fazem parto normal, resolvi escrever minha experiência antes e depois de ser gestante de um bebê pélvico. Explico: tive endometriose antes do Matheus. Por saber que se tratava de uma doença que causa infertilidade, mesmo tendo retirado os focos (que graças a Deus não comprometeram nenhum órgão) numa videolaparoscopia, pouco me importava o parto ou a forma de nascer. Importava pra mim se eu seria mãe. Eu tinha uma preocupação muito maior do que o momento do parto em si e não o idealizava. Eu sabia que tinha nascido para a maternidade, eu tinha paixão pela ideia de cuidar e educar outra pessoa para o bem. Por isso, morria de medo de ter expectativas frustradas e tudo o que eu queria era saber que podia ser mãe e ter o meu filho nos braços. Dessa forma, negligenciei todo tipo de informação externa que não as orientações dadas pela minha obstetra à época.

Na ultra morfológica foi a primeira vez que percebi que o Matheus estava sentado e ele permaneceu assim até nascer. Eu sabia por uma amiga muito próxima estudiosa de partos que eu poderia fazer manobras, exercícios e afins. Mas como peitar uma médica experiente que me sugeria que “esse tipo de coisa era arriscado”? Que me afirmava com veemência que era impossível o meu bebê ainda virar naquela altura do campeonato (consulta de 35 semanas), que se eu precisava ter uma cesárea que deveria ser logo, para eu não entrar em trabalho de parto e, para coroar o terror disfarçado de conselho, contou-me a tragédia que havia acontecido com um colega que tinha “perdido” a paciente no parto normal havia duas semanas (hoje vejo que essa história deve ser uma mentira contada a todas as pacientes por volta de 37 semanas). Em nenhum momento me foi dada a opção de esperar até 40 semanas para ver se o bebê virava e ficava cefálico. Hoje vejo que isto tudo fazia parte da conveniência dela, assim como a conveniência de mudar o hospital 2 semanas antes de ele nascer, porque o plano da outra paciente com parto no mesmo dia que eu não cobria o primeiro hospital. Não que isso me importasse mas preciso mostrar evidências de todo um planejamento que levava em conta a rotina dela e não a chegada do bebê. Quando ela me falou: “Ah, que bom assim, né, mesmo você querendo tentar o parto normal, o bebê já escolheu por você. Hoje a cesárea é tão segura, rapidinha, muito melhor do que se você ‘parasse’ no parto normal, né, sentir dor, ficar com medo, demorar todo aquele tempo pra nascer…” E o pior: Eu, inocente e ignorantemente, repetia para as pessoas próximas: “ele escolheu, bom que não precisei escolher (em tom de brincadeira), então não vai poder ser parto normal…” Hoje sei que o tom de brincadeira era o mecanismo de defesa psicológica que eu estava usando para lidar com aquele fato. E a programação neurolinguística está aí pra mostrar que a minha obstetra que eu enxergava como confiável, a despeito de não ter feito uma violência física, porque entre as cesarianas, a minha foi muito bem sucedida, fez, sim, uma violência psicológica, me fazendo acreditar que quem estava escolhendo era o bebê, quando na verdade, quem escolheu o momento foi ela.

Entendam, de forma nenhuma condeno a cesariana em casos de bebê pélvico, em outras indicações reais ou quando a mãe escolhe e se sente mais segura assim. Mas citando meu caso, até os médicos humanizados concordam que a questão do pélvico é complicada e deve ser analisada com atenção. Só que hoje vejo que meu bebê estar pélvico foi a desculpa que minha obstetra precisava para me fazer acreditar muito antes das 40 semanas que “obviamente” meu único caminho seria a cesárea. Não posso ser hipócrita e dizer que tenho certeza de que escolheria um parto natural se meu bebê chegasse ao trabalho de parto sentado, afinal não existe consenso nem entre os ativistas e simpatizantes desse tipo de parto em caso de bebê pélvico. Mas eu queria ter sido incentivada a fazer exercícios e afins para tentar fazê-lo ficar cefálico. Eu queria ter certeza de que ele tivesse estado no meu ventre talvez até o tempo de virar, o que nunca saberei se aconteceria. Eu queria muitas coisas que não pude pelo terror psicológico relacionado à posição do meu neném causado pela médica que me acompanharia no parto. E já que isso eu queria e não pude, mas consciente do meu maternar, muita coisa hoje eu quero.

Não estou dizendo aqui que considero o momento do nascimento do Matheus traumático. Pelo menos pra mim não, muito pelo contrário. O momento do nascimento dele foi muito lindo e emocionante e reitero tudo que escrevi em meu relato exposto aqui o blog. Considero-me uma boa mãe para meu filho, uma criança linda, saudável e me sinto muito abençoada e agraciada por isso. Não me considero melhor ou pior do que nenhuma mãe. Só me considero hoje mais consciente e segura do que quero para mim. Quero ser a melhor mãe que o meu filho pode ter. Quero que seja obediente, mas questionador. Que busque informação porque informação é poder. Que vá com calma e não seja ansioso e passivo como sua mãe era à época da gestação, mas que sim, seja parecido com a mãe que ele tem hoje, com a mãe da forma que ele já conheceu e que surgiu no momento do seu nascimento: leoa, poderosa, consciente. Quero que ele seja tão feliz como me sinto em cada sorriso dele, em cada descoberta que ele faz, em cada momento que ele me dá os bracinhos pedindo colo. Agradeço por ele não fazer distinção entre a hora que ele nasceu ou poderia ter nascido, não me “cobrar” não ter vindo para o meu colo imediatamente na saída da barriga nem ter mamado na primeira hora de vida, pois retribui com carinho todo o meu cuidado desde que chegou aos meus braços definitivamente. Agradeço por me fazer sentir o seu amor em cada gesto, agradeço por ter me escolhido, me tornado mãe e me deixado conhecer esse amor que cresce a cada dia. ♥

Esse texto é dedicado:
ao meu filho Matheus pelos motivos já citados no parágrafo acima;
ao meu marido Rafael que sempre me deu apoio e liberdade de escolha em todos os aspectos desde a minha gestação;
à minha mãe que cuidou de mim não só desde o nascimento como nos dias posteriores à cesárea em que o corte ainda doía;
a ela de novo e ao meu pai, por estarem sempre disponíveis para mim e a nova família que formei;
à minha amiga Fernanda por ter sido a primeira pessoa que me fez pensar sobre esse assunto e que segurou minha mão, no sentido literal e figurado, durante toda a gestação, no dia do nascimento e até hoje…

…e não menos importantes nesse processo, dedico essas palavras a amigas mais experientes nesse tema, que me ajudam constantemente seja por meio de relatos, respondendo dúvidas, ajudando-me com informações, numa conversa saudável, sem julgamentos e, principalmente, cercando-me de carinho afirmando a certeza de que, apesar de não ter questionado o momento do nascimento antes do meu filho nascer, sou para ele a melhor mãe que ele pode ter. Obrigada.

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