Conversa Materna, Gente que compartilha

De pertinho não sou tão boa mãe assim

Por Sheila Mendonça

Definitivamente, a maternidade é uma montanha russa. Pensamos a todo instante que a coisa está caminhando e quando nos achamos expert em algum assunto ou que superamos aquela fase complicada, algo sempre acontece para nos lembrar o quanto somos limitadas, o quanto temos a aprender.

Tenho três filhos e com o mais velho no auge dos seus seis anos, às vezes me inclino ao conforto de me achar boa nesta tarefa tão complexa de ser mãe. Vejo alguns dramas maternos e penso o quanto foi fácil para mim passar por todo aquele drama me esquecendo que não foi tão fácil assim. Não, eu não julgo, não palpito, não reclamo, não acho ruim e nem me sinto superior. Ok, ok, ás vezes me sinto, mas não em alta voz. Afinal, estou falando dos meus filhos e sobre eles, eu deveria realmente ser expert em cuidar. Mas não sou. Não sou mesmo!

Existem momentos em que um olhar torto do marido me faz culpada por algo, que sinceramente, não deveria me sentir, eu sei. Ele mesmo não sabe e não entende o mal que me fez me olhando daquele jeito. Na verdade, ele deveria estar pensando em alguma outra coisa, mas com essa tal culpa que me persegue, visto a carapuça. E em momentos assim, não é raro as vezes em que, em resposta ao silêncio perturbador do julgamento imaginário, digo:

– Eu sou uma boa mãe! – Querendo mais do que convencer, acreditar.

E não tão raro também, escorrem a lágrimas de culpa lembrando-me que nem eu mesma acredito no que digo. É normal passarmos semanas, até meses acreditando que desenvolvemos esta expertise em cuidar dos nossos filhos. Às vezes andamos de cabeça erguida, entramos nas reuniões de colégio com nariz em pé, passos largos e uma certa arrogância em nos achar melhores que a maioria que está ali.

– Haaa… quê isso? Eu sou excelente mãe. Melhor que aquela ali que não vai a nenhuma reunião, melhor que aquela outra que deixa o filho bater em todo mundo. Sim, eu sou. Eu sou. Sou? Não. Não sou.

É… Sinto em dizer, mas estamos no mesmo barco. Há dias em que acordamos mais bonzinhos e outros que somos péssimos pais, daqueles de trocar fraldas dos filhos no trocador do Extra, dar miojo com nuggets no almoço, refrigerante com empada de lanche, brigar para que nos deixem ficar no celular em paz, esquecer de escovar os dentes ou com preguiça demais para insistir que tomem banho. Sim, há dias em que acordamos assim.

Assim, de pertinho, ninguém é boa mãe. A maternidade, na verdade, me parece um quadro de Monet. Se olharmos de pertinho só vemos pinceladas desconcertadas, cores bagunçadas, uma certa incerteza no traço. Mas com alguns passos para trás vemos toda a magnitude da obra. O nosso problema é que olhamos pertinho demais, buscando nossas imperfeições com olhos treinados e com lupa para não deixar passar nada. Andamos por todo canto da casa (e da vida) com uma fita métrica querendo medir o quanto somos boas ou más diante de coisas sem importância alguma ou que não podem ser medidas.

E no final das contas, estamos aqui míopes, sem conseguir enxergar a magnitude de nossa obra. Sim, filhos são obras de arte, incertos, imprecisos, complexos e imprevisíveis. Acredite, nenhuma força neste mundo entregaria um trabalho tão complexo para alguém despreparado. Experimente se olhar de longe, com olhos desconhecidos, sem julgamentos e enfim enxergará o resultado das noites em claro.

De pertinho, ninguém é boa mãe. O interessante nisso tudo é que os filhos estão ali do nosso lado sem entender, sem nada medir, mas enxergando de pertinho. E eles nada veem de imperfeito. Será mesmo que de perto somos tão péssimas mães assim? Ou o amor seria um óculos que curaria toda visão imperfeita? Prefiro acreditar que sim. Viva nossas imperfeições que nos une! Viva o amor que nos conserta!

Sheila Mendonça é Relações Públicas e empreendedora. Inquieta, curiosa e amante por literatura, sempre viu nas crônicas de Mario Prata uma inspiração para transformar o cotidiano em textos bonitos e interessantes, que trouxessem leveza à vida com um toque de humor. Pensando nisso, criou o “Uai, mãe!?“, para dividir a rotina com os três filhos, contando suas dúvidas e receios, compartilhando com outras mamães sua experiência de forma leve e descontraída.

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