Experiências, Gente que compartilha

Criança não é brinquedo!

Por Sheila Mendonça

Passeio no shopping. Samuel, na época com 3 anos e Bernardo com pouco mais de 1 ano. Luiza não tinha nem rastro da sua chegada. Enquanto trocava o Bernardo, entraram três garotas com um bebezinho. Uma menina linda. Pensei que fossem trocar a fralda. Me enganei. A criança não apenas parecia uma boneca, como realmente era. Estava com um laço enorme na cabeça, vestidinho, sapatos e meia calça, uma lindeza. Logo que entraram foram tirando a roupinha da menina:

– Por que você não coloca aquele vestidinho rosa? – Uma delas pergunta para a que parecia ser a mãe.

– É mesmo! Tinha me esquecido dele. – Ela responde e continua – Mas aí vamos ter que trocar tudo para combinar!

Começaram tirando os sapatos, a meia e o laço. Começaram a discutir qual das opções de sapatinho que haviam levado combinava mais com o vestido, a combinação ideal de cores para o laço. E eu fiquei me perguntando de onde tiravam tanta coisa para comparar e escolher.

Lembrei-me agora da bolsa da Hermione de Harry Potter, no filme “Harry Potter e as Relíquias da Morte Parte I e II”. Com um feitiço ela fazia a própria bolsa aumentar a capacidade de carregar coisas, sem mudar o lado externo que parecia com um objeto comum. Inegavelmente, aquelas mulheres deviam frequentar Hogwarts, só pode. Mexiam e remexiam e mais opções de vestidos com as devidas combinações apareciam.

Trocaram tudo na menina. Deram um passo para trás e olharam, procurando defeitos, como se fosse possível achar algo de errado naquele anjo, mas acharam.

– É… acho que fica melhor com a calça jeans e aquela blusinha de oncinha. – Uma delas diz.

– Vamos trocar então. – A mãe deu o veredito.

Trocaram tudo novamente. O vestido prendeu na cabeça, eles puxaram mais forte e riram do sofrimento do bebê. Coitada da criança. Lá se foi o vestido que deveria ser mais confortável e entrou uma calça jeans justa que era exatamente o contrário.

Terminei de trocar o Bernardo e vesti-lo. Olhei bem para a menininha e fiquei com pena. Quem pensaria no seu conforto, se ela está feliz em trocar tantas vezes de roupa para suprir a vaidade da mãe? A criança não era filha, era boneca. Brincavam literalmente de trocar roupinhas e de casinha. A diferença, é claro, a boneca era inanimada e a garotinha um ser humano que estava sendo obrigada a ficar nua, no ar condicionado pelo tempo que fosse necessário para a mãe e as amigas pensarem no melhor “modelito” para circular no shopping. Ela não se importava com a roupa, se estava combinando. Só queria ficar quietinha e confortável. Talvez estivesse com sono e cansada. Ninguém ofereceu algo para comer, talvez nem fosse a hora, mas o que me preocupou é que em nenhum momento algo foi feito em seu benefício. Algum carinho que seja, nada! Era boneca. E bonecas são assim mesmo: servem para nos beneficiar e acatar nossas ordens, sujeitas às nossas vontades apenas. Elas não choram, não reclamam. Quando nos cansamos, as deixamos de lado ou compramos outra. Criança não! Criança tem vontades, mesmo as menorzinhas. Sentem fome, frio e desconforto. Duvido que alguém daquele trio dormisse de calça jeans, mas condenavam a criança a isso! Cruel.

Outro dia, dando uma passeada pelas redes sociais, me deparei com um vídeo compartilhado por milhares de pessoas que riam e se divertiam com a desgraça alheia. Nele havia uma menininha, imagino que deveria ter uns 8 anos ou pouco mais, que tentava a todo custo cortar um bolo que deveria ser de aniversário, dada empolgação que ela o fazia. Qual foi a surpresa, quando o “bolo” explodiu? Era uma bexiga coberta com glacê. Tentei achar graça naquilo. Lembrei-me de uma coisinha chamada “empatia”, aquela capacidade de se colocar no lugar do outro que tanto tentamos ensinar aos nossos filhos. Como será que aquela garotinha estava se sentindo sendo feita de boba e ainda com um vídeo publicado para milhares rirem da sua cara? Eu acho que não muito bem. E como você se sentiria quando alguém em quem confia muita te oferece um bolo de aniversário falso só para rir da sua cara? Que graça há em fazer o filho de palhaço? Como no caso do pai que deu um ovo cru enrolado no papel de Kinder Ovo só para ver a criança se decepcionando! Que bonito, hein? Que legal ver um rostinho que há poucos minutos estava exultante de alegria ir de contentamento à tristeza e decepção! Sem contar na confiança nos pais que deve ir por água abaixo, né? É como eu me sentiria. Você pode argumentar que é apenas uma brincadeira, mas está mais do que comprovado que para as crianças, não há separação entre fantasia ou a realidade. Eles não entendem dessa forma. Como disse, coloque-se no lugar. Se fosse contigo, também acharia que é “só” uma brincadeira?

E pensando nisso, em como me sentiria diante de tamanha exposição, procuro ser o mais honesta possível com os meus filhos. Aqui não tem o “na volta a gente compra”. Samuel no auge dos seus 6 anos entende bem quando digo que não posso comprar algo. Explico direitinho. Não preciso enganar meus filhos para conseguir que obedeçam. Não precisa ser assim. Eles têm que aprender a lidar com as frustrações, o que é muito melhor do que lidar com a mentira vinda da boca dos pais, eu creio.

Infelizmente, o que vemos nas redes sociais é o inverso. Fazer criança de besta, duvidar da sua inteligência é moda, é engraçado. Dá muitos “likes”, muitas visualizações. E o que não faríamos por mais e mais “likes”, por aceitação? Tudo! Até postar foto de nossos filhos em momentos constrangedores, como sentados na privada. Aqui vale tudo!

Na minha infância o que mais me irritava era a falta de respeito dos adultos. Lembro-me de ser feita de besta, de me tratarem mal, de testarem meus limites de paciência com brincadeiras abusivas. Quando e se eu perdesse o controle, ficava de castigo. Eles podiam fazer o que quisessem, me desrespeitar, falar coisas feias, magoar, que tudo era perdoado. Responder era um absurdo, por que eram “os mais velhos”. Até na minha adolescência, quando minha mãe exigiu que eu pedisse desculpas por algo que não havia feito, só por ter sido honesta e dito que não gostava de tal brincadeira.

– Não, mãe. Para se exigir respeito, temos que respeitar também. – Eu disse.

Ela me entendeu. Havia crescido e tinha voz.

O quanto crianças como estas terão que crescer para exigir que sejam respeitadas, seus limites respeitados? Criança não é brinquedo. Precisam ser direcionadas a respeitar o que o outro sente, a respeitar momentos de raiva e de frustração que deverão vir naturalmente com a vida, por que sempre vem, e a lidar com esses sentimentos, saber controla-los. Não serem desafiados constantemente, testados até a exaustão, usados pelos adultos para se divertirem às suas custas. Pense nisso!

O primeiro passo para ensinar empatia, amor e respeito ao próximo, é fazendo o mesmo!

Sheila Mendonça é Relações Públicas e empreendedora. Inquieta, curiosa e amante por literatura, sempre viu nas crônicas de Mario Prata uma inspiração para transformar o cotidiano em textos bonitos e interessantes, que trouxessem leveza à vida com um toque de humor. Pensando nisso, criou o “Uai, mãe!?“, para dividir a rotina com os três filhos, contando suas dúvidas e receios, compartilhando com outras mamães sua experiência de forma leve e descontraída.

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