Conversa Materna, Gente que compartilha

Coisa de menina, uma ova!

Por Sheila Mendonça

– Que hora o papai chega?

– Pra quê, filho? – eu pergunto.

– Para ele jogar bola comigo. – ele responde.

– Eu posso jogar com você.

– Mas, mamãe, meninas não sabem jogar futebol.

Uma sirene soou na minha cabeça. Como boa mulher que adora o termo “empoderamento feminino”, se fosse qualquer homem dizendo uma bobagem dessa, eu iria com tudo, com argumentos fortes mostrar que essa afirmativa estava errada, sairia discussão na certa, eu sei.  Porém não era qualquer homem que me falava isso. Nem exatamente “homem” ele era, mas 0  meu filho de seis anos. Dá para acreditar?

Meu filhinho, criado em uma família tradicionalmente liderada por mulheres, já que tanto eu quanto o pai dele fomos criados sem a presença de nossos pais e nos acostumamos a conviver com mulheres fortes que carregaram literalmente a família nas costas, esse mesmo filhinho esta ali na minha frente dizendo que mulher não sabe jogar futebol.

– Você acha que meninas não sabem jogar futebol, filho? – Eu pergunto.

– Sim. – Ele responde um pouco constrangido ao perceber minha indignação.

– Meninas são fracas, filho? – Continuo perguntando.

Ele fica chateado e se nega a responder.  Pego o computador e começo mostrando vídeos da Marta, jogadora da seleção brasileira. Ele assiste a tudo, sem falar nada. Acho que ele não entendeu que se tratava de uma mulher jogando.

– Sabe quem é essa, Samuel? A Marta! Ela é mulher e joga melhor que muito homem por aí.

– É?

– É. Joga até melhor que o Fred do Fluminense – Eu cutuco o meu pequeno tricolor.

Começo a abrir várias fotos de mulheres fazendo o que é considerado “coisa de homem” e abrir outras de homens fazendo “coisas de mulher” como cozinhar ou cuidar dos filhos.

– Não existe “coisa de mulher” ou “coisa de homem”, filho. Todo mundo pode fazer o que quiser. Eu adorava jogar futebol quando era criança e não há mal nenhum nisso.  Meninos podem brincar com panelinhas e meninas com carrinhos. – Expliquei. – Mamãe é até mais forte que o seu pai! – Rimos juntos.

No final de semana seguinte, fomos à pracinha jogamos bola juntos. Até fiz gol no maridão!   Mostramos na prática que não há diferença alguma.

Diante de tal acontecimento eu fiquei me perguntando de onde esse menino tirou isso.  Onde ele teria visto ou ouvido que há no mundo alguma separação entre mulheres e homens? Nada me veio à cabeça, mas pensando bem, talvez esteja subliminar nas reuniões de colégio com a plateia composta apenas de mães e alguns pais “gatos-pingados”, incluindo meu marido. Talvez esteja na cara feia que alguns fazem ao ver um pai trocando sua filha ou lhe dando banho, como se fosse algo anormal. Em alguns shoppings há até proibição da entrada de homens por terem mulheres amamentando ou trocando suas filhas, como se eles não fossem pais também. Está nas lojas de brinquedos, ali escondido nos tábuas de passar, lavadoras, fogõezinhos, tudo bem rosa mostrando que lugar de mulher desde cedo é na cozinha, contrastando com os brinquedos de menino que vão ao espaço, têm carros bacanas, jogos interessantes e podem sonhar com qualquer profissão. Os jogos de meninas são sempre envolvendo brincadeira de como se vestir bem, como se maquiar, como trocar fraldas ou cuidar de um bebê, ensinando, esfregando no nariz e dando um tapa na cara da mãe que trabalha duro para manter sua família, que diferente do que ela ensina à filha, mulher não nasceu para ser dona de si, que às meninas só sobra a parte de se manterem sempre belas à espera do príncipe encantado e terminar sua vida cuidando da casa e dos filhos.

Sei que é bastante complicado nadar contra a maré e quebrar esses paradigmas, mas está em nossas mãos essa mudança. Em horas como esta que precisamos nos lembrar das vezes que ouvimos absurdos por aí por sermos mulheres, o quanto nos é negado simplesmente pela escolha que fizemos, as encruzilhadas que nos deparamos na vida como maternidade/trabalho, como se uma coisa não pudesse andar de mãos dadas à outra, caso alguém decida facilitar a vida das mães, dado a opção de trabalhar em casa ou flexibilizar os horários, não apenas respeitando, mas incentivando mulheres a irem cada vez mais longe.

Nós temos voz. Ela pode hoje não ser tão ouvida em casa com o marido, no trabalho, nas ruas ou nas urnas, mas com nossos filhos, eu sei que temos. Está na hora de criar filhos melhores para o mundo, pessoas de bem e unido ao bom caráter de cada um, essa consciência de que todos somos iguais em direitos e diferentes no modo de pensar o que não tem problema algum se não ferir o direito do outro.

Bóra criar rapazes gentis e educados, meninas fortes e decididas. E que ambos saibam ouvir o que temos a ensinar, que saibam trilhar um caminho bonito e cheio de flores que hoje, nós ajudamos a plantar.

Sheila Mendonça é Relações Públicas e empreendedora. Inquieta, curiosa e amante por literatura, sempre viu nas crônicas de Mario Prata uma inspiração para transformar o cotidiano em textos bonitos e interessantes, que trouxessem leveza à vida com um toque de humor. Pensando nisso, criou o “Uai, mãe!?“, para dividir a rotina com os três filhos, contando suas dúvidas e receios, compartilhando com outras mamães sua experiência de forma leve e descontraída.

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