Família, Gente que esclarece

Ciúme e rivalidade entre irmãos: uma reflexão sobre o modo como os pais lidam com essa questão

A chegada de um irmão não representa uma realidade fácil para uma criança enfrentar. Nenhuma criança fica feliz de ter que dividir com o irmão seu quarto, brinquedos, e principalmente a atenção e o afeto dos pais. Para a criança, o irmão é um intruso, alguém que ela não escolheu e que veio roubar o seu lugar no coração dos pais, cuja presença foi imposta por eles que tentam convencê-la de que o irmão é um amigo, com o qual no futuro ela irá compartilhar os melhores momentos da sua vida.

Essa é uma reação bastante comum entre os adultos, apreensivos com a chegada de mais um filho, eles tentam convencer o outro que o irmão é um presente que a vida lhe deu, ignorando, assim, o turbilhão de sentimentos contraditórios vividos por ele, na tentativa de se livrar da difícil tarefa de ajudá-lo a atravessar esse momento, deixando, assim, de reconhecer e legitimar o ciúme do filho e de apostar na sua capacidade de encontrar as suas próprias saídas para lidar com essa situação.

O ciúme é um sentimento natural e inevitável na relação entre irmãos. São muitas as formas que uma criança encontra de demonstrar o que ela está sentindo em relação á chegada do irmão, sendo as reações mais comuns as atitudes regressivas, a impaciência, a inquietação, a irritação e a agressividade, manifestada principalmente através de ataques contra a caçula. Reprimir esses comportamentos ou ignorar o que a criança está sentindo não é a saída mais adequada, pois ao fazê-lo, os pais correm o risco não só de reforçar o ciúme que ela sente do irmão, mas também de que a criança se cale e passe a sofrer em silêncio.

Cabe aos pais colocar no filho os limites necessários com ternura, para que ele se sinta seguro quanto ao seu amor e deixe de alimentar as fantasias criadas em relação à chegada do irmão, como a crença de que este bebê que enche os pais de orgulho veio para roubar seu lugar no coração deles. Por isso, é importante que os pais acolham o ciúme do filho, o que vai depender não só do que a chegada de cada filho representa para eles, mas, sobretudo da vivência que eles tiveram no passado como filho e irmão na sua família de origem.

O passado familiar é uma terra fértil onde nascem muitos fantasmas. Refletir sobre sua própria história, procurando esclarecer como resolveram ou não as questões que vivenciaram com seus irmãos, pode ajudar os pais a compreender como estão conduzindo os conflitos com seus filhos no cotidiano. Conheço casais que idealizaram para os filhos uma relação de intimidade, passando a exigir que eles se tornassem cúmplices, na tentativa de que os filhos estabelecessem uma relação que eles não foram capazes de construir com seus irmãos, o que só contribuiu para aguçar o ciúme, o ódio e a rivalidade vivenciada entre eles.

A fratria é uma doença de amor feita de rivalidades e cumplicidades, compreender isso é importante para que os pais de aos filhos o tempo necessário para que a relação entre eles flua com naturalidade. Essa naturalidade também deve existir na relação dos pais com cada um dos filhos. Para isso, é preciso que eles reconheçam que existe da sua parte preferências em relação aos filhos, que surgem de afinidades e identificações.

Admitir isso não representa um problema, desde que os pais procurem identificar as diferenças que existem entre os filhos, valorizando as habilidades e os talentos de cada um, evitando, assim, que o filho preferido se torne alvo do ciúme e do ódio dos irmãos, que podem se sentir desvalorizado, acreditando que os pais desejam que eles sejam como o preferido, objeto de admiração e idealização.

Essa não é uma tarefa fácil para os pais, que tendem a fazer comparações entre os filhos, criando rótulos para defini-los que podem ser danosos não só para as relações estabelecidas no âmbito familiar, mas também para a construção que cada um faz de si mesmo.

Acolher os filhos na sua diferença, estabelecendo com eles uma relação íntima, procurando, assim, legitimar o papel e o lugar de cada um na família, torna-se a grande tarefa a ser realizada pelos pais, pois, só assim o ciúme e a rivalidade entre os irmãos serão superados, na medida em que cada um terá a certeza do amor dos pais independente das suas preferências e afinidades. Afinal, ser pai é antes de tudo adaptar-se ao filho que não saiu como o esperado.

Fonte
RUFO, Marcel. Irmãos: Como entender essa relação?

Por Marina Otoni: sócia-fundadora da Clínica Base, graduada em Psicologia pela PUC-MG, Especialista em teoria psicanalítica pela UFMG e Mestranda em psicologia pela UFMG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à mulher focando temas como a maternidade e o feminino.
(www.clinicabase.com)

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