Experiências, Gente que compartilha

A melhor coisa que você pode fazer por um filho é ter outro por Tati Bernardi

Esta semana, após publicar uma foto das minhas filhas nas redes sociais do Indiretas e conversar com algumas mães sobre irmãos, fiquei bem pensativa sobre o assunto. Tenho duas irmãs e não poderia me imaginar sem elas, isso foi uma das coisas que pesou na hora de decidir ter outro filho. Conheço na pele as delícias de ter com quem dividir a vida e queria que minha filha sentisse o mesmo.

Foi aí que, por acaso, encontrei um texto de autoria da Tati Bernardi sobre o assunto e quis compartilhar com vocês! Acho que resume bem meus sentimentos acerca desse assunto.

“Sou filha única. Essa semana meu pai fez uns exames no hospital, nada preocupante. Fiquei na sala de espera, aguardando que ele voltasse dopado pela melhor droga do mundo: a da endoscopia (você já experimentou? É sensacional!). Enquanto esperava, fantasiei. Tenho a maldita mania de dramatizar tudo. Imaginei que ele estava internado ali e que eu esperava por notícias de sua saúde. Fui acometida por um golfo súbito e indiscreto de tristeza que fez saltar lágrimas de todos os buracos da minha face. A recepcionista me olhou assustada e, tentando doçura, avisou “é um exame muito simples, sem riscos, ele volta em trinta minutos no máximo”.

Pedi licença, sem me explicar (eu não sei me explicar, sou louca, só isso) e me tranquei no banheiro mais próximo. Chorei vinte e sete minutos ininterruptamente naquele banheiro. Senti uma solidão profunda, devastadora, invencível, arrebatadora e inexplicável. Abracei a lamúria até ser despertada por uma velhinha da fila da colonoscopia: ela precisava mais do banheiro do que eu. Quando meu pai saiu, eu estava firme e piadista. Como sempre. Sou sempre firme e piadista com meus pais. Mas por dentro eu estou morrendo. Meus pais estão com 65 e 70 anos. O mais velho é meu pai. Podem durar mais vinte anos, eu sei. Mas pela primeira vez na vida comecei a pensar na morte deles. O problema é que eles envelheceram e eu não. Eu continuo com 12, 13 anos. Firme e piadista por fora…mas assustadíssima e carentíssima por dentro.

Mas onde quero chegar com tudo isso? Não quero chegar, quero voltar. Quero voltar pro útero de mamãe e me dividir em duas. E me dar um irmão. Alguém nesse mundo que possa se trancar comigo em um banheiro improvável e chorar porque, um dia, nossos pais vão simplesmente desaparecer. Eu tenho amigos, muitos. Eu tenho uns parentes por aí também. Mas não tem jeito, eu sou ridiculamente sozinha nessa vida. Eu sei, tem gente que tem irmão e nem olha na cara dele. Eu sei, nossos irmãos de verdade são os nossos amigos. Mas não é de uma amizade pura e perfeita e presente que estou falando. Eu estou falando de existir mais alguém nesse mundo que, um dia, divida comigo essa dor incomensurável de perder um pai ou uma mãe. Saber que a história da minha infância se encerra em mim é tão terrível que acho que virei escritora por isso. Talvez se eu me contar, eu exista. Talvez se eu me lembrar, eu exista. Ter um irmão é ter, pra sempre, uma infância lembrada com segurança em outro coração.

Eu queria ter alguém que dividisse comigo todas as maravilhas e todas as desgraças de ter nascido com esse pai e essa mãe. Eu queria ter, quando meus pais se sentem sozinhos ou decepcionados ou apertados de grana, apenas metade da culpa gigantesca que é ser um filho. Eu queria ter, nos jantares alegres e também nos insuportáveis, apenas metade dos méritos. Enfim, a endoscopia não deu nada. Os exames de sangue do meu pai estavam melhores do que o meu. O manobrista do hospital deu 25 reais. O trânsito da volta estava um caos. Meu pai disse as coisas mais engraçadas do mundo no carro, por causa da melhor droga do mundo. Essas todas eram coisas que eu queria muito dividir com alguém. Sobrou pra você, leitor.”

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6 Comments

  • Reply Renata at

    A mais nova ditadura…
    Atormentar quem por opção quer um filho só!
    Muito chato!
    Tenho 3 irmãos mas 1 filho apenas.E até ele opina e não deseja ter irmãos !
    Então por favor deixem as pessoas fazerem o q bem entendem das suas vidas…
    Cada um sabe onde seu calo aperta…

    • Reply Bárbara Vitoriano at

      Oi Renata, tudo bem? Não sei se você chegou a ler o texto, ele é de autoria de Tati Bernardi e é uma opinião pessoal da autora, sobre um momento pessoal que ela passou. Não existe nenhuma ditadura, apenas o compartilhamento do sentimento da autora perante ao assunto.

      Abraços

  • Reply noemy at

    olha eu acho que cada pessoa tem necessidades sim tem pessoas que são felizes sendo filho unico mais eu não vejo minha vida sem meu irmão por perto moramos longe sou casada mais falo quase todo dia com ele lembramos historias recentemente ele sofreu um acidente eu achei que iria morrer junto sou muito ligada nele vejo coisas que meu filho faz que lembra ele é calmo como ele chorão como ele era magrelinho, ele tem uma filha que é brava assim como a tia kkk nos vemos um no outro em nossos filhos,eu não queria ter outro filho mais meu filho já pede e tem carência por um irmão estávamos pensando na possibilidade de ter outro eu acho q nada é imposição viviam falando ai tem outro tem outro eu acho q isso é uma escolha do casal se querem ter um dois ou três acho q ninguém deve pressionar minha família ficava pegando no nosso pé mais eu resolvi ter outro na hora que eu acho adequada e a hora é agora estamos tentando e felizes pq foi uma decisão entre nós 3 pai mãe e filho.

  • Reply Deised at

    Olha, eu tenho apenas 1 irmã e minha vida não seria a mesma se ela não existisse. Eu não teria com quem dividir a culpa qd fazíamos algo errado, eu não teria com quem dividir os castigos, as roupas, o quarto e a vida. Eu não teria o sobrinho mais lindo desse universo se eu não tivesse irmã. E minha mãe, essa sabe das coisas, se pudessem nos teria dados mais uns 3 irmãos, quem me conhece sabe disso, sabe que ela engravidou e perdeu, depois adotou uma criança linda recém nascida que viveu apenas 1 mês ao nosso lado e parte dele foi internado em um hospital. Enfim, por uma vida com mais irmãos rsrsrs.

  • Reply Lindamara Lima at

    Olá, achei muito interessante o texto e me fez lembrar como minhas duas ir mães são importantes em minha vida. Não tivemos pai e imagine se eu n tivesse elas duas, família nunca é muito, n é uma regra mas sempre quem tem um quer ter outro independente do tempo q isso custe. Minhas irmães são minhas melhores amigas e dividem todas emoções comigo, lembrar de nossa infância é maravilhosa, mesmo sem a figura paterna. Toda criança tem direito a ter uma família completa, pai, mãe, irmãos, tios, primos, avós, etc.. E é muito importante para seu crescimento e saúde emocional.
    Tenho uma filha do meu primeiro casamento e hj ela com cinco anos se sente sozinha e já me pede alguém p brincar, bom minha vontade é ter mais um daqui uns 5 anos, imagina meu Natal sem muitos filhos e netos na mesa? seria tão triste, imagino quando eu partir? com quem minha pequena Li irá partilhar suas felicidade e dores se ainda n for casada. Sim, ser mãe é sensacional e sempre outro bebê é bem vindo no momento certo, e meu noivo hj quer ter 3 filhos e pretendo lhe dar ao menos um. Rs

  • Reply Mariana at

    Olá, eu fui filha única até os 17 anos até meus pais tbem adotivos adotarem minha irmã, sou imensamente feliz por te-la conosco. Me casei e tive um filho, e dicifida após um parto chato a não ter mais nenhum… o tempo passou e assisti um primo meu que é filho único sofrer em ter que cuidar de sua mãe (minha tia) com câncer, sofreu isso com sua esposa e tbem nossos tios, mas a carga de ser filho único estava nele; infelizmente ela faleceu e ele novamente sofreu a dor da perda sozinho… naquele dia decidimos que meu filho não ia ser sozinho no mundo. Seis anos após uma cesarea desnecessária nasce minha boneca de parto natural foi de fato um renascimento para mim, meu esposo e para meu filho mais velho o melhor presente que ele terá para sempre uma companhia, amiga, um ombro e mais do que isso alguem para o ajudar a carregar o fardo da vida quando nós pais viermos a faltar! Lindo o texto, porque eu também me sentia assim antes de minha irmã chegar.

    E aos que tem optado por ter um filho único. Não vejam este texto de forma de “cobrança”. A autora como está aí o comentário, o fez relatando algo pessoal… Não queira caçar “pelo em ovo” por favor!

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