Gente que esclarece, Maternagem

A máscara da maternidade

Percorrendo as prateleiras de uma livraria me deparei com o livro de Susan Maushart, cujo título, “A máscara da Maternidade”, despertou minha curiosidade. A maternidade é um tema instigante que há muito tempo venho estudando com o intuito de compreender a complexidade e profundidade dessa experiência. Sou mãe e psicóloga clínica, apaixonada pela minha profissão e pelo universo feminino, acolho em meu consultório mulheres em busca de equilíbrio e apoio para lidar com os desafios e dilemas que a maternidade trouxe para a sua vida. Escutando essas mulheres e convivendo com o universo materno, do qual comecei a fazer parte depois que me tornei mãe, observei que os dilemas e dificuldades vivenciadas pelas mulheres no cotidiano, geralmente só são compartilhados com um terapeuta. É raro ouvir uma mulher admitir em público que a maternidade não é só flores e que o nascimento de um filho provocou mudanças irreversíveis na sua vida. Modificando, assim, a maneira como ela vê o mundo e se relaciona com sua família, com seu companheiro, com seu trabalho e consigo mesma. O que normalmente gera angústia, medos, dúvidas e muitos conflitos, nem sempre fáceis de administrar.

Para Susan Maushart, isso acontece porque a mulher de hoje trata a maternidade como mais um papel e obrigação social, negando, assim, toda a sua dimensão emocional. Quando engravida, ela consome através de livros e cursos uma quantidade enorme de informações sobre gestação, parto, amamentação e primeiros cuidados. Não que esses aspectos não sejam importantes e não mereçam uma atenção, mas as mudanças que a chegada de um filho provoca na vida de uma mulher, do casal e da família, as expectativas, inseguranças, medos e dúvidas são tão ou mais importantes.

Para Susan, a mulher não se prepara para o que vem depois, por isso, quando o filho nasce, muitas mulheres adotam a máscara da maternidade. Ao fazê-lo, ela passa a negar suas emoções e a fazer malabarismo acreditando que tudo vai ser como antes. Adota uma rotina estressante tentando desesperadamente conciliar maternidade, casamento, vida profissional e outros papéis que ela desempenha no seu cotidiano. Terminando o dia, muitas vezes, exausta, frustrada, profundamente infeliz e convicta de que é a pior mãe, profissional e esposa do mundo.

Por isso, é preciso deixar a máscara cair, admitir que a maternidade é uma das experiências mais gratificantes da vida, mas também difícil e conflituosa, que é o maior exercício diário de altruísmo, na medida em que a mulher perde a liberdade de decidir a própria vida, ao ter que incluir nos seus planos e na sua rotina o filho, que vai consumir grande parte do seu tempo, da sua energia e investimento emocional. Admitir que diferente do que acontece com as outras escolhas que fazemos na vida, que podemos negociar a qualquer momento, arcando com as perdas e ganhos da decisão que tomamos, a maternidade é para sempre, é mais do que uma opção, é um novo estilo de vida. Reconhecer isso pode ser o começo para a conquista de um equilíbrio e de uma vida mais feliz e gratificante.

Fonte: Susan Maushart. A máscara da maternidade: por que fingimos que ser mãe não muda nada? São Paulo: Editora Melhoramentos, 2006.

Por Marina Otoni: sócia-fundadora da Clínica Base, graduada em Psicologia pela PUC-MG, Especialista em teoria psicanalítica pela UFMG e Mestranda em psicologia pela UFMG. Referência da Clínica Base em projetos relacionados à mulher focando temas como a maternidade e o feminino. (www.clinicabase.com)

 

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